L̷A̶S̷C̸A̶_ prelúdios de uma sabotagem

2026/2027
dance/performance

L̷A̶S̷C̸A̶_ prelúdios de uma sabotagem

A performatividade de género impõe-se como uma exigência de perfeição, uma repetição incessante de gestos e códigos que, ao serem citados constantemente, fabricam uma verdade naturalizada. É um ritual onde “o corpo” deve ser o palco de uma representação coerente, “onde a virgem”, “a oferecida”, “o reservado” ou “o garanhão” são máscaras que se devem ajustar sem falhas. Este solo, no entanto, é uma obra de arte queer, logo falhada. É o ato deliberado de levar a repetição ao ponto de rutura, transformando a citação da norma num erro que expõe a sua própria ficção.

_ prelúdios de uma sabotagemsurge na sequência de LABIA, um projeto de investigação processual e colaborativo iniciado em 2023 através de residências artísticas site-specificque reúnem artistas queer de diferentes áreas. Nesse contexto, dança, performance, voz, instalação sonora, escultura e vídeo coexistem num espaço de experimentação horizontal e transdisciplinar, onde o foco não está na criação de um objeto final, mas na partilha de processos, vulnerabilidades e formas de cuidado coletivo. A falha, a incerteza e a instabilidade tornam-se motores de criação e relação.

_ prelúdios de uma sabotagem nasce da vontade de regressar à pesquisa de minhe corpe, focando a investigação num objeto performativo autónomo, definido dramaturgicamente e direcionado para um confronto direto com os mecanismos da performatividade cis-heteronormativa.

Neste espaço, propõe-se uma figura Drag. Drag não é imitação de género, mas hiper-performatividade — a amplificação radical dos códigos que expõe o que Judith Butler apelida de "substância fictícia" do género. Não há um género verdadeiro por trás da performatividade; só há a repetição estilizada de atos no tempo. A performatividade torna-se performance, e a performance conscientiza o erro. É nesta transição constante, a partir da falha, que o género deixa de ser uma prisão para se tornar um espaço de liberdade.

Ao vestir e despir estas fisicalidades, este corpe não procura a representação bem-sucedida, mas sim o tropeço, a fissura, o momento em que a máscara escorrega e a carne se revela. O erro não é um acidente, mas a estratégia central. A performance transita da legibilidade ao absurdo — começa com a ilusão de um dito “género identificável”, para rapidamente desmantelar essa certeza ao sobrecarregar gestos, comportamentos, posturas e discursos até à sua rutura.

A pesquisa metodológica deste projeto assenta numa abordagem prática de desconstrução somática e sonora, onde performer atua simultaneamente como sujeito e objeto de estudo. Serão desenvolvidos exercícios de improvisação que partam de movimentos e vocalizações estilizados — desde o escarro emproado, a postura de poder do «macho-men» da masculinidade tóxica, o olhar do galã misterioso, até ao silenciamento, à contenção da voz e à hiper-sexualização do corpo feminino—,utilizando figurinos, maquilhagem, adereços e próteses como extensões artificiais que reforçam os diversos códigos de género, levando a representação ao ponto de colapso. Cada camada de figurino despido, maquilhagem que escorre, cada prótese que se desprende, torna-se um ato de recusa à norma.

Paralelamente, a investigação sonora desenvolve-se através da criação de uma paisagem híbrida entre eletrónica e sons acústicos gravados — respiração, ruídos corporais e voz. Sobre esta base, integram-se fragmentos de repertórios musicais e momentos cinematográficos associados a performances de género normativo binário (homens e mulheres cis-heteronormativas). Estes elementos sustentam uma técnica característica de Drag: o lipsync, operado no limiar entre a sincronia e a dessincronia com a voz de performer. A este conjunto incluir-se-á um texto autobiográfico que se construirá durante o processo, dito ao vivo e em voz-off, adicionando uma camada onde a voz, por vezes tratada com efeitos e amplificada em determinados pontos do espaço, deixa de pertencer a “um corpo” específico, tornando-se um elemento flutuante e indistinto. Assim, a cultura popular funciona como cenário da hegemonia, enquanto a voz e corpe de performer atuam como o erro que a desestabiliza.

Esta tensão entre orgânico e sintético espelha a própria condição social “do corpo” como palco de uma construção artificial, transformando os "erros" em matéria-prima estética. Neste processo, a voz e o som não funcionam como instrumentos de comunicação ou narrativa linear, mas como matéria física bruta que resiste à categorização, criando um campo de forças onde a fragilidade e a falha se tornam a matéria estética da peça.

O erotismo que emerge deste processo não reside na perfeição da forma, mas na fricção violenta entre a imposição da norma e a beleza do erro. É o prazer de ver a estrutura desmoronar, de sentir este corpe a recusar a coerência que lhe foi imposta. Neste espaço, a falha torna-se um ato de resistência política e estética, onde este corpe se liberta da necessidade de ser legível e abraça a sua própria incompletude.

Em "The Queer Art of Failure", Jack Halberstam afirma a falha não como fracasso, mas como alternativa radical de existência. Recusar o sucesso da norma é recusar a lógica capitalista, patriarcal e colonial que exige produtividade, legibilidade, coerência e submissão ao nor-cis-macho-branco, que permanece nos lugares de poder. Falhar é sobreviver de outra forma. É habitar o que foi descartado, o que foi considerado erro, lixo, sobra. É aqui, nestas margens que queer se propõe a existir, transformando a incapacidade de cumprir a norma numa potência criativa que desafia a própria estrutura do que é considerado "válido".

Num contexto de crescente desinformação e ofensiva global contra os direitos das pessoas LGBTQIA+, a identidade de género tornou-se alvo de um ataque coordenado: a direita e a extrema-direita, aliadas internacionalmente, promovem a retórica da "ideologia de género", reabilitam a noção de que ser trans é uma patologia mental e aprovam leis que criminalizam as existências trans e não-binárias, incluindo o ressurgimento de "terapias de conversão" e a revogação de proteções legais conquistadas. Apesar das principais instituições de saúde internacionais (OMS, APA, WPATH) terem retirado a incongruência de género da categoria de transtornos mentais, reclassificando-a como uma questão de saúde sexual, a mobilização política, social e a prática artística continuam a ser atos fundamentais de resistência.

Como artista trans meta-binárie, construo obras autobiográficas ficcionadas onde aplico a minha vivência e visão do mundo, expondo a artificialidade da norma nas suas diversas camadas. Garantir direitos humanos concretos exige desmontar a ficção da "verdade natural" da cis-normatividade; é neste desmantelamento que a falha se transforma em ato de sobrevivência coletiva, uma resposta urgente à negação sistemática da nossa humanidade e à luta por um futuro onde a existência queer seja finalmente reconhecida e respeitada.

Este solo é a primeira parte de um díptico, a primeira 'lasca' que se rompe da superfície rígida do regime, abrindo o caminho para uma peça coletiva. E*foriaé um projeto que assentará na construção de corpes-monstres, na descoberta das suas infinitas possibilidades de destruição e sobrevivência, num ciclo que se repete infinitamente. Uma peça para sete performers prontes para habitar as fissuras e construir novas formas de existência fora da lógica colonial da perfeição.

_ ̸ prelúdios de uma sabotagem é um manifesto que nos permite vislumbrar corpes-monstres não como erros, mas como as únicas existências possíveis num mundo que se imagina livre.

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